Guia do Kit de Primeiros Socorros
Numa emergência, os serviços de saúde podem demorar horas ou até dias a chegar. Um corte enquanto cozinha com uma lata, uma queda enquanto se desloca às escuras durante um apagão, ou uma reação alérgica quando a farmácia está fechada: qualquer uma destas situações pode tornar-se um problema sério se não tiver um kit de primeiros socorros preparado. A Cruz Vermelha recomenda que cada lar tenha um kit de primeiros socorros completo e que pelo menos um membro da família saiba utilizá-lo.
Este guia explica-lhe o que deve conter o seu kit, como organizá-lo e como mantê-lo atualizado. Não precisa de ser médico: com os materiais adequados e conhecimentos básicos pode tratar a maioria das lesões menores e estabilizar situações mais graves até que chegue ajuda profissional.
Aviso importante: este guia é orientativo e não substitui a formação em primeiros socorros. Recomendamos fazer um curso básico de primeiros socorros com a Cruz Vermelha ou a Proteção Civil. Perante qualquer emergência sanitária grave, ligue o 112.
Material de penso
O material de penso é a base do kit. Serve para limpar, desinfetar e proteger feridas menores, que são as mais frequentes em qualquer emergência.
- Compressas esterilizadas: de diferentes tamanhos (7x7 cm e 10x10 cm). Para limpar e cobrir feridas. Tenha pelo menos 10-15 unidades.
- Ligaduras elásticas: de 5 cm e 10 cm de largura. Para fixar compressas, imobilizar entorses ou fazer compressão. 2-3 rolos de cada tamanho.
- Adesivo ou fita adesiva médica: para fixar compressas e ligaduras. De preferência hipoalérgico.
- Pensos rápidos (adesivos): de vários tamanhos. Os de tecido resistem melhor que os de plástico. Um pacote sortido.
- Pensos para bolhas: tipo Compeed. As bolhas são frequentes se tiver de caminhar muito durante uma evacuação.
- Soro fisiológico em doses individuais: para lavar feridas e olhos. Mais prático e seguro do que usar água da torneira numa emergência.
- Antisséptico: clorexidina ou iodopovidona (Betadine). A clorexidina é menos agressiva e não mancha a pele. Evite a água oxigenada: danifica o tecido são.
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Medicamentos básicos
Os medicamentos que incluir dependerão da sua família, mas há um núcleo comum que cobre as queixas mais habituais:
- Paracetamol: para dor e febre. É o analgésico mais seguro para a maioria da população, incluindo crianças (em dose pediátrica) e grávidas.
- Ibuprofeno: anti-inflamatório e analgésico. Útil para dores musculares, pancadas e dores de cabeça. Não indicado para pessoas com problemas gástricos.
- Antidiarreico (loperamida): a diarreia pode ser um problema sério em emergências, especialmente se a água ou os alimentos estiverem contaminados. A desidratação por diarreia é perigosa.
- Sais de reidratação oral (SRO): saquetas que se dissolvem em água potável. Imprescindíveis para tratar desidratação por diarreia, vómitos ou excesso de calor.
- Anti-histamínico: para reações alérgicas ligeiras (picadas, urticária). A cetirizina ou loratadina não provocam sonolência.
- Creme para queimaduras: tipo Silvederma ou similar. As queimaduras são frequentes quando se cozinha com fogo aberto ou velas.
- Pomada antibiótica: para feridas com risco de infeção. Aplicar apenas em feridas limpas.
Medicação crónica: a parte mais importante
Se algum membro da sua família tomar medicação de forma habitual (tensão arterial, diabetes, tiroide, epilepsia, asma...), este ponto é crítico. A Proteção Civil recomenda ter sempre uma reserva de pelo menos 30 dias de toda a medicação crónica. Numa emergência, as farmácias podem estar fechadas, desabastecidas ou inacessíveis.
- Fale com o seu médico sobre manter uma prescrição adiantada para emergências.
- Guarde a medicação de reserva no kit de emergência, não no mesmo local que a de uso diário.
- Verifique os prazos de validade a cada 3 meses e faça a rotação da medicação.
- Tenha uma cópia das receitas e uma lista com nomes de medicamentos, doses e horários. Em papel, não apenas no telemóvel.
Para pessoas com diabetes que necessitam de insulina, tenha em conta que a insulina precisa de refrigeração. Num apagão prolongado, consulte o seu médico sobre as opções de conservação e as margens de temperatura. Consulte o nosso guia de energia para opções de manter dispositivos médicos alimentados.
Instrumental e equipamento
- Tesoura de pontas rombas: para cortar ligaduras, adesivo e roupa se necessário.
- Pinça: para remover lascas, carraças ou fragmentos de vidro.
- Termómetro digital: a febre é um indicador-chave em muitas situações. Não use termómetros de mercúrio (são tóxicos se se partirem).
- Luvas de nitrilo: para se proteger ao tratar feridas de outras pessoas. Pelo menos 10 pares. O nitrilo é melhor que o látex porque provoca menos alergias.
- Máscaras FFP2: úteis tanto para proteção contra poeira e fumo (incêndios, derrocadas) como para situações de pandemia. Tenha pelo menos 10 unidades.
- Manta térmica de emergência: pesa menos de 50 gramas dobrada e pode prevenir a hipotermia. Reflete o calor corporal. Tenha pelo menos 2 por pessoa.
- Torniquete: para hemorragias graves. Requer formação para ser usado corretamente. Se fizer um curso de primeiros socorros, ensinam-lhe.
Torniquete CAT Gen 7
O torniquete que os serviços de emergência utilizam. Aplicação com uma mão
Organização do kit
- Contentor resistente: um saco ou caixa rígida de plástico, impermeável, com fecho seguro. De preferência de cor chamativa (vermelho ou laranja) para o encontrar rapidamente.
- Localização acessível: todos os membros da família devem saber onde está. Fora do alcance de crianças pequenas mas fácil de agarrar numa evacuação.
- Dois kits: um completo em casa e um básico mais pequeno na mochila de evacuação ou no carro.
- Inventário: cole uma lista na tampa interior com todo o conteúdo. Assim sabe de relance se falta algo.
Manutenção: revisão a cada 3 meses
Um kit com medicamentos fora de prazo ou compressas abertas não lhe servirá quando precisar. Estabeleça um lembrete trimestral para:
- Verificar os prazos de validade de todos os medicamentos.
- Repor o que se tenha gasto ou caducado.
- Confirmar que as compressas esterilizadas continuam seladas.
- Verificar que as luvas de nitrilo não se deterioraram (o calor degrada-as).
- Atualizar a medicação crónica se houver alteração de doses ou tratamentos.
Máscaras FFP2 50 unid.
Pack 50 máscaras CE. Para poeira, fumo ou pandemia
Lista rápida: o seu kit de primeiros socorros
- Compressas esterilizadas, ligaduras elásticas, adesivo e pensos rápidos sortidos
- Soro fisiológico em doses individuais e antisséptico (clorexidina)
- Paracetamol, ibuprofeno, antidiarreico e anti-histamínico
- Sais de reidratação oral
- Creme para queimaduras e pomada antibiótica
- Medicação crónica para 30 dias
- Tesoura, pinça, termómetro digital
- Luvas de nitrilo (10 pares) e máscaras FFP2 (10 unid.)
- Mantas térmicas de emergência
- Cópia das receitas médicas em papel
Um kit de primeiros socorros bem preparado pode fazer a diferença entre um incómodo menor e um problema médico sério. Invista umas horas a montá-lo, reveja-o regularmente e certifique-se de que a sua família sabe onde está e como usar o básico. Complemente o seu kit com o resto do seu plano: consulte o guia de higiene para manter a salubridade e use o nosso planificador para calcular tudo o que precisa.
Fontes: Cruz Vermelha Portuguesa, Proteção Civil de Portugal, Organização Mundial de Saúde (OMS), Ordem dos Farmacêuticos.
Perguntas frequentes
Como conservar insulina durante um apagão prolongado em Portugal?
Durante o apagão ibérico de 28 de abril de 2025, milhares de diabéticos tipo 1 em Portugal entraram em pânico ao perder o frigorífico — felizmente, a insulina é mais resistente do que se pensa. Segundo a Sociedade Portuguesa de Diabetologia e a bula dos fabricantes (Novo Nordisk, Sanofi, Eli Lilly): a insulina fechada deve manter-se a 2-8 °C, mas uma vez aberta ou durante uma emergência aguenta até 28 dias a temperaturas até 30 °C sem perder eficácia clínica. Estratégia em apagão: 1) Não abra o frigorífico — mantém 4-6 horas de frio se fechado. 2) Mude as canetas ou frascos abertos para a parte mais baixa e fresca da casa (cave, despensa interior). 3) Use um saco isotérmico Frio Frio Cube ou MedAngel até 36 h. 4) Acima de 30 °C ou se congelar, descarte. Tenha 1 mês extra de canetas em casa.
Que doses pediátricas de paracetamol e ibuprofeno são seguras numa emergência?
Em emergência sem acesso à USF, a SPP (Sociedade Portuguesa de Pediatria) e a DGS publicam doses padronizadas que pode aplicar com segurança em crianças com mais de 3 meses: Paracetamol (Ben-u-ron, Panadol): 10-15 mg por kg de peso a cada 4-6 horas, máximo 4 doses por 24h. Exemplo: criança de 15 kg = 150-225 mg (1 supositório infantil ou 5-7,5 ml de xarope 24 mg/ml). Ibuprofeno (Brufen, Nurofen): 5-10 mg/kg a cada 6-8 horas, máximo 3 doses por 24h, apenas a partir dos 6 meses e com alimento. Para 15 kg = 75-150 mg (4-7,5 ml de xarope 20 mg/ml). Nunca dê: aspirina antes dos 16 anos (síndrome de Reye), codeína antes dos 12. Vá ao hospital se: febre >40 °C, manchas que não desaparecem ao pressionar, recém-nascido <3 meses com qualquer febre, ou se há sonolência excessiva.
Como ligar para o CIAV (Centro de Informação Antivenenos) em Portugal?
O CIAV é o serviço telefónico 24/7 gratuito do INEM que orienta em intoxicações por medicamentos, produtos químicos, plantas, picadas e mordeduras — fundamental antes de levar alguém ao hospital ou de provocar vómito (na maioria dos casos, é contraindicado). Números: 800 250 250 (gratuito, rede fixa) e 808 250 143 (rede móvel, custo de chamada local). Atendido por médicos toxicologistas em Lisboa. Antes de ligar, tenha à mão: 1) Nome comercial e princípio ativo do produto (fotografe a embalagem). 2) Quantidade aproximada ingerida ou superfície de contacto. 3) Hora exata da exposição. 4) Idade e peso da vítima. 5) Sintomas atuais. Aponte no frigorífico junto ao 112. Erros comuns: provocar vómito sem indicação, dar leite (acelera absorção de muitos venenos), dar carvão ativado em casa sem instrução médica.
Como reconhecer e tratar um golpe de calor durante uma onda de calor como a de Évora 2023?
Em julho de 2023, Évora atingiu 46,4 °C (recorde IPMA), com 14 mortes diretas atribuídas pela DGS a golpe de calor. É uma emergência médica — diferente da insolação leve. Sinais de alerta (chamar 112 já): temperatura corporal >40 °C, pele quente e seca (parou de suar), confusão, agitação ou desmaio, convulsões, batimento cardíaco acelerado. Atuação imediata enquanto espera o INEM: 1) Leve a pessoa para o local mais fresco disponível (interior, sombra). 2) Tire a roupa em excesso. 3) Arrefeça agressivamente: panos com água fria nas axilas, virilhas, pescoço; vaporize água com aspersor e ventile com leque ou ventoinha. 4) Imersão em banho de água fresca (não gelada) se for adulto consciente. 5) Não dê paracetamol — só ajuda em febre infecciosa, não em hipertermia. 6) Se consciente, dê pequenos goles de água com sais minerais. Risco máximo: idosos >75 anos, bebés, doentes crónicos.
Como fazer RCP em adulto, criança e bebé sem formação prévia?
Quando alguém para de respirar, a Cruz Vermelha Portuguesa estima que cada minuto sem RCP reduz a sobrevida em 10%. Sequência simplificada pela ERC 2025 (European Resuscitation Council): 1) Verifique consciência: chame, abane ombros. 2) Se não responde, peça a outra pessoa para ligar 112 e trazer um DAE (consulte app DAE Portugal). 3) Abra a via aérea: mão na testa, dois dedos no queixo, incline a cabeça para trás. 4) Verifique respiração 10 segundos. 5) Se não respira, comece RCP. Adulto: 30 compressões torácicas (talão da mão no centro do peito, 5-6 cm de profundidade, ritmo 100-120 por minuto — cadência da música Staying Alive dos Bee Gees) + 2 insuflações. Criança 1-8 anos: 1 mão, 5 cm, mesmo ritmo. Bebé <1 ano: 2 dedos, 4 cm, mesmo ritmo. Continue até o INEM chegar ou a pessoa responder. Faça um curso oficial com a Cruz Vermelha (50-80 €).
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Se só puder fazer uma coisa, monte um kit básico com gazes, adesivo, antisséptico e analgésicos simples. Não precisa de um mala clínica para começar: o essencial é conseguir tratar cortes, pequenas queimaduras e dor até ter ajuda. Use a nossa calculadora médica para priorizar componentes, ou o planeador do PlanoRefugio para ajustar o kit ao seu agregado.
O seu kit de primeiros socorros está pronto para uma emergência?
O planificador verifica o material médico de que precisa segundo a sua família e indica o que falta.
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